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Português foi morto por um cigarro

10/03/2010

Carlos tinha 37 anos

Foi comprar tabaco e queria voltar a casa. Mas foi morto com uma facada no coração. Suspeitou-se de assalto. Agora a policia de Rennes capturou o provável assassino e percebeu que o português morreu porque não deu um cigarro.

Carlos Ferreira da Araújo, de 37 anos, o pai de família português morto o mês passado na localidade de Saint-Brieuc, França, foi assassinado por ter recusado um cigarro ao seu agressor, um jovem francês de 22 anos que se encontra agora em prisão preventiva. O emigrante, que deixa mulher, Ana Maria, e dois filhos menores – Tânia e Ricardo, respectivamente com 12 e 7 anos de idade – trabalhava na construção civil desde que tinha chegado a França, há seis anos.
Segundo o procurador Gérard Zaug, o homicida confessou o crime alegando que “se tinha enervado mas que não queria matar a vítima”, que “nem sequer conhecia”.
No seu domicílio, a Divisão Criminal da Brigada Inter-regional da Polícia Judiciária de Rennes encontrou, escondida debaixo do colchão, uma faca de ponta e mola que as autoridades pensam ser a arma do crime.
“Ele já era conhecido dos serviços de polícia e tem registo criminal por porte ilegal de arma”, disse ao 24horas o procurador da Republica.
Segundo o relatório da polícia, o homicida puxou da faca após uma breve altercação à porta do bar, e atingiu o português na zona do coração, “porque este lhe tinha recusado um cigarro” alegando que queria chegar depressa a casa. Pouco antes da agressão, o jovem tinha estado no bar onde tentou, sem sucesso, comprar cigarros utilizando um cartão de crédito.
O alegado homicida foi identificado pela polícia graças ao sistema vídeo do bar – “L’entract Bar” – situado no centro daquela localidade francesa, ao lado da representação do Banco de França.
No dia 2 de Fevereiro, o português saiu de casa, cerca das 20h45, minutos antes da sua morte, para comprar tabaco. Tencionava voltar rapidamente para junto da família e assistir na televisão à transmissão de um jogo de futebol, uma das suas paixões.
Segundo as autoridades locais o emigrante “estava perfeitamente integrado”, era membro de uma equipa de futebol em Plédran e “participava regularmente na vida da comunidade onde era muito apreciado pela população, independentemente da nacionalidade”.
A morte de Carlos Araújo provocou uma viva emoção na localidade onde chegaram a ser organizadas manifestações junto da comunidade portuguesa que se encontra fortemente implantada na região desde a década de sessenta.
Foi aliás com a ajuda financeira da população que o corpo do português foi transladado para Portugal onde foi enterrado na aldeia de Martim de Além, concelho de Barcelos. Um jornal regional – Ouest France – juntou-se à população e deu apoio à viúva e aos dois filhos de Carlos Araújo que vieram a Portugal para o enterro mas que entretanto já regressaram a França.
Antes da transladação para Portugal, a população local participou numa missa celebrada na igreja de Saint-Guénolé de Ginglin, onde se encontra uma representação de Nossa Senhora de Fátima. Para financiar a transladação, estimada a mais de sete mil euros, assim como as despesas de viagem das duas crianças e da mãe, a população local organizou um peditório.
Durante todo o dia de ontem o 24horas tentou, sem sucesso, contactar com Ana Maria, a viúva de Carlos.

Alegado cúmplice em liberdade

“Ele foi identificado há alguns dias”, disse ao 24horas o comissário Nicolas Guidoux da Brigada Inter-regional da Policia Judiciaria de Rennes.
Segundo este oficial, “as imagens vídeo permitiram chegar ao homicida, que foi também identificado graças a testemunhas que se encontravam na “Rue de la Gare” no momento do crime”.
Após ter esfaqueado o português, o jovem agressor terá fugido numa scooter com outro indivíduo que as autoridades francesas libertaram esta semana, após interrogatório, o que está a provocar uma vaga de protestos entre a população local.
“Ele poderá vir a ser julgado por cumplicidade ou por não ter denunciado o crime,” disse o comissário Guidoux explicando que a polícia “confrontou a versão dos dois homens” mas que agora compete à Justiça determinar o que fazer com ele.
O presumível homicida – que confessou a autoria do crime – incorre numa pena máxima de 20 anos de prisão.

À espera de justiça

A noticia da detenção do homicida veio acalmar a comunidade portuguesa na região que chegou a ameaçar fazer “justiça por mãos próprias se a policia não chegasse a descobrir o autor”, como disse Carlos Dias, um emigrante português que participou na organização do movimento de apoio à família de Carlos Ferreira de Araújo.
“Foram palavras de raiva que agora não fazem grande sentido,” disse o emigrante ao 24horas.
“Vamos esperar o processo e esperar que algo assim não volte a acontecer”, acrescentou explicando que o que mais traumatizou a população local, e em particular a comunidade lusitana, “foi o Carlos ser uma pessoa que não era violento, que nunca se misturou em brigas ou confusões”.

→ publicado no 24 Horas

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