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Hollywood rende homenagem a cônsul português

22/05/2009

Aristides de Sousa Mendes, o “Schindler” português salvou mais de 38.000 vidas

O Cônsul em 1939

O Cônsul em 1939

Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus até 1940, é um dos diplomatas escolhidos pelo realizador Michael King – recompensado por um Emmy Award – e pelo biógrafo oficial de Winston Churchill, Sir Martin Gilbert, para figurar num filme de duas horas que conta a história de 15 diplomatas não judeus, oriundos de 11 países diferentes, que não hesitaram em agir contra o nazismo, e por vezes contra os seus próprios governos, para salvar mais de 200.000 judeus durante a segunda Guerra Mundial.
O filme documentário, onde participa o príncipe Charles de Inglaterra, é realizado por Michael King com Sir Martin Gilbert e Stephanie Nyombayre, activista conhecida pelas suas posições contra o genocídio. Intitulado “Os salvadores: Heróis do Holocausto” o filme tem um orçamento inicial de 2 milhões de euros, financiados pela Fundação Mandell, e o português é mesmo uma das personagens centrais.
Reintegrado no corpo diplomático em 1988 por proposta do socialista Jaime Gama, Aristides de Sousa Mendes é o único português que faz parte dos “Righteous Among the Nations” (Justos entre as Nações) no Yad Vashem Holocaust Memorial de Jerusalém, em Israel, onde decorrem neste momento as filmagens.
Ao lado da história pessoal de Aristides figuram ainda o sueco Raoul Wallenberg que salvou milhares de judeus em Budapeste; o vice-cônsul norte-americano em Marselha, Hiram Bingham IV; o membro do partido nazi alemão Georg Ferdinand Duckwitz, diplomata do Reich em Copenhaga que avisou o governo dinamarquês da eminência da deportação dos judeus; Feng Shan Ho, cônsul chinês em Viena; Varian Fry, jornalista e diplomata americano que salvou inúmeros artistas e intelectuais; o turco Necdet Kent, cônsul geral em Marselha, entre outros.
Previsto nas salas de cinema em Março de 2010, “Os Salvadores” inclui igualmente referências aos genocídios no Ruanda e Darfur, já que os autores querem mostrar o comportamento das pessoas face aos horrores do passado e no presente – mostrar o que fizeram e não fizeram.

“Aquele que salva uma vida é como se salvasse o Mundo inteiro”

O cônsul Aristides de Sousa Mendes foi demitido das suas funções a 4 de Julho de 1940 por ter “desonrado Portugal perante as autoridades espanholas e as forças alemãs de ocupação (…) e por ter ousado colocar os seus próprios imperativos de consciência à frente das suas obrigações de funcionário”, disse Salazar. Para o ditador, Aristides tinha violado a circular nº14 de 11 de Novembro de 1939 que especificava ser necessário “evitar a entrada em Portugal de gente indigna”, ao que o diplomata tinha respondido, baseando-se no artigo da Constituição Portuguesa que negava qualquer forma de descriminação, “a desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus”.
Durante o processo disciplinar que lhe foi instaurado – uma pura formalidade – Aristides voltou a sublinhar que agiu por pura humanidade e que “ao salvar milhares de vidas, honrou Portugal e a tradição cristã do seu país”. Apesar da sua defesa, Aristides acabaria por ser afastado do corpo diplomático.
Mesmo depois de ter sido castigado pelo regime de Salazar, na sua casa em Cabanas de Viriato (Viseu), Aristides continuou a ajudar os refugiados a quem tinha passado vistos de saída, entre eles – a título de exemplo – Albert De Vleeschauwer, o ministro belga responsável pelo Congo e a sua família.
Vítima de um ataque do coração, que lhe provocou a paralisação do lado direito do corpo, Aristides – advogado de profissão – nunca mais foi autorizado a trabalhar e acabaria por morrer na mais completa miséria a 3 de Abril de 1954, vítima de uma trombose cerebral e de uma pneumonia no Hospital da Ordem Terceira em Lisboa. Na sua lápide pode-se ler o epitáfio “Quem salva uma vida, salva o mundo”.
Entre 17 de Junho de 1940 e a sua destituição, o cônsul português de Bordéus entregou 30.000 vistos e ainda hoje é – segundo as autoridades israelitas do Yad Vashem – o homem que, individualmente, mais vidas humanas salvou, das quais mais de 10 mil judeus.
De entre as 12.000 árvores plantadas na Ala dos Justos nos jardins do Memorial em Jerusalém, existe uma com o nome de Aristides de Sousa Mendes, mais alta do que todas as outras.
Reconhecido como um herói e um “justo” pelas autoridades israelitas desde os anos sessenta, em Portugal, apesar do 25 de Abril o caso do cônsul injustiçado – como ficou conhecido – só vem a público em 1986 no Diário Popular e no ano seguinte o Presidente Mário Soares concede, a título póstumo, a Ordem da Liberdade a Aristides de Sousa Mendes. A reabilitação só ficou completa em 1988 por proposta do actual presidente da Assembleia da República, aprovada na unanimidade pelo parlamento.

Duarte Levy



One Comment
  1. Isabel permalink
    23/05/2009 19:26

    Este senhor é um grande heroi. Infelizmente muito poucos em Portugal fazem ideia quem ele é. Tendo em conta a forma como os Portugueses se vêem perante o mundo, este tipo de referência de compatriotas é, no meu entender, da maior importância. Há muito que me questiono porque é que este senhor não é estudado nas nossas escolas. Afinal, não será ele o tipo de exemplo que devemos seguir?

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