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Madeleine McCann: Duas versões, dois documentários

18/04/2009

Jane Tanner fez tudo para descrever um raptor português

Jane Tanner fez tudo para descrever um raptor português

“Jane Tanner deu às autoridades portuguesas uma versão da noite fatidica muito diferente do que depois contou às autoridades inglesas”

Em 2007, após a saída de Gonçalo Amaral da coordenação do Departamento de Investigação Criminal (DIC) da Policia Judiciária em Portimão, no dia do seu aniversário – 2 de Outubro – muitas diligências eram ainda possíveis na investigação ao desaparecimento de Madeleine McCann, mas poucas ou quase nenhumas foram feitas.
Apesar de todos os ingleses do chamado “grupo do Tapas” terem sido oficialmente chamados a regressar para participarem na reconstituição do que terá acontecido na noite em que Maddie desapareceu, nenhum o fez e as autoridades portuguesas aceitaram esse facto como se já o esperassem à partida. Uma outra diligência, os interrogatórios feitos em Inglaterra, acabariam por revelar mais contradições nos testemunhos mas foram lamentavelmente sabotados quer pela polícia inglesa quer pela PJ.
Como Gonçalo Amaral tinha denunciado, as autoridades em Inglaterra não tinham o nível de colaboração que delas se esperava e as ingerências da diplomacia – hoje mais que evidentes – tinham produzido o seu objectivo: o responsável pelas investigações foi afastado e substituído por alguém mais “maleável” e o caso preparava-se para ser arquivado.
Com duas versões de uma mesma noite, recriadas agora em documentários produzidos para a televisão – uma em Portugal sob a orientação de Gonçalo Amaral e outra, inglesa, pelos McCann – o 24horas voltou a analisar o testemunho de Jane Tanner, aquela que é uma das “personagens” mais importantes de um caso real onde a vítima continua a ser só uma: Maddie.

Capa da revista 24horas em Portugal

Capa da revista 24horas em Portugal

Capa da versão americana do 24horas

Capa da versão americana do 24horas

Especial “Maddie”: Publicado no 24horas em Portugal e nos Estados-Unidos.

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O alegado raptor descrito por Jane Tanner

Jane Tanner, sem dúvida uma das personagens centrais do caso e de ambos os documentários, descreveu em Portugal um indivíduo, o alegado raptor, “que não podia ser um turista” porque – diz ela – “estava muito encasacado”. O homem teria então entre 35 e 40 anos, cabelos muito escuros, era magro e tinha cerca de 1,70 m de altura. Apesar da distância, Jane diz aos inspectores portugueses que o suspeito vestia umas calças de tecido de cor bege e dourado, um casaco tipo “duffy” (mas não tão grosso) e calçava sapatos clássicos de cor preta.
jane-tanner-suspects-235De acordo com o primeiro testemunho de Tanner, o suspeito andava apressadamente e levava uma criança deitada nos seus braços que “parecia maior que um bebé”. Sobre a criança, Jane apenas acrescentou em Maio de 2007 que “só viu as pernas” mas vestia um pijama parecido a algodão cor-de-rosa onde teve a “sensação” de ver um desenho de flores.
Uma vez em Inglaterra, o mesmo homem é descrito por Jane Tanner como “um pai que transportaria a sua própria criança” cuja descrição já não coincide exactamente com aquela que foi dada à PJ: o homem usa agora roupas escuras e amplas que não eram “do género de roupa de uma pessoa em férias num complexo Mark Warner”.
Detalhe que Tanner sublinha aos investigadores, e que serviu de base ao documentário inglês que a testemunha supervisionou recentemente na Praia da Luz, as roupas do alegado raptor “não parecem ser de origem britânica mas sim que foram compradas em Portugal”: Tanner nunca explicou aos investigadores o porquê deste afirmação limitando-se a esclarecer que foi o que o grupo tinha apontado “para não esquecer” e se prepararem para os interrogatórios da PJ.
Ainda em Portimão, Jane dizia que “não teve dúvidas que seria” Madeleine porque, através da conversa que manteve com Fiona Payne, na qual ela lhe descreveu o pijama que a menina usava naquela noite, viu que tudo coincidia com aquilo que viu.
Em Inglaterra, a memória de Tanner voltou a alterar-se e o pijama é apenas de cor clara e já não tem ideia da conversa que manteve com Fiona.
Em todos os interrogatórios, Tanner, que afirma ter usado o caminho mais longo para chegar do Tapas ao seu apartamento, diz ainda ter cruzado Gerry McCann e Jeremy Wilkins frente as escadas de acesso ao 5A mas estes afirmam não a ter visto. Nem a ela nem ao alegado raptor.
Ela própria, aos investigadores portugueses dizia em Maio de 2007 não se recordar das posições que Jeremy e Gerry ocupavam na rua. Quase um ano mais tarde, Tanner foi capaz de precisar onde os dois homens estavam.
Perante a PJ e confrontada com a informação de que as equipas cinotécnicas farejaram pistas que supostamente indicavam que Madeleine não passou pelo cruzamento onde indicou ter visto o homem que levava uma criança ao colo, mas sim numa direcção oposto – que coincide aliás com os testemunhos da família Smith – Tanner foi peremptória e defendeu não estar a mentir mantendo a sua versão inicial. Não obstante a importância desta questão, que poderia até servir de indício de que um alegado raptor poderia ter usado um percurso diferente para a sua fuga, nem Tanner nem a policia inglesa voltou a abordar este assunto.
Em Portugal, frente aos polícias portugueses e ingleses que acompanharam os interrogatórios e as primeiras diligências, Tanner indica Robert Murat como sendo o homem que ela teria alegadamente visto a transportar uma criança, mas, nos interrogatórios em Inglaterra, muda completamente de versão e diz que quando Bob Small a levou para uma camioneta de onde podia observar Murat sem ser vista, “havia um carro que passou nesse momento e depois duas pessoas passaram a pé” o que a terá perturbado e identificado o luso-britânico por erro.
A leitura dos interrogatórios de Jane Tanner em Inglaterra, sem necessitar qualquer comparação com as suas declarações precedentes à PJ, revela por si só o seu lote de contradições: explicando a forma como colaborou com a polícia portuguesa na identificação de Murat, Tanner afirma primeiro que quando se encontrou com Bob Small não sabia quem ele era e que pediu ao seu companheiro, Russell O’Brien, para tomar nota da matrícula do carro onde se fazia transportar o polícia. Na mesma sessão de interrogatório, Tanner diz que na altura levou “muito a sério” a sua colaboração com as autoridades e que nem sequer teria contado ao companheiro que se ia encontrar com Bob Small e por que razão.

A importância das chamadas telefónicas

Detalhe importante da investigação oficial ao desaparecimento de Maddie é a longa análise feita a todas as comunicações telefónicas feitas pelos nove ingleses durante todo o tempo que permaneceram em Portugal.
É Jane Tanner quem revela à polícia inglesa que David e Fiona Payne utilizavam um telemóvel português na altura em que Madeleine desapareceu, uma situação que não era aliás única já que Kate e Gerry McCann tiveram também à sua disposição aparelhos equipados com um chip português, alguns dos quais nunca conhecidos da PJ.
Questionada em Inglaterra acerca das suas próprias comunicações telefónicas, Jane Tanner identifica todos os correspondentes como sendo amigos ou familiares mas não consegue dizer quem era o proprietário de um telemóvel português a quem ela telefona e envia mensagens escritas depois do desaparecimento de Maddie. A questão não chegaria aliás a ser elucidada.
Outro detalhe importante que nenhum dos documentários – o português baseado no livro de Gonçalo Amaral e o inglês sob a “direcção” de Gerry McCann – explica é a contradição entre as diversas testemunhas acerca dos movimentos de Kate McCann.
Perante a polícia do Leicestershire, Jane Tanner, questionada a esse efeito, diz que não viu se Kate McCann abandonou a mesa durante o jantar porque ela “estava de regresso ao quarto nesse momento” apenas voltando a vê-la depois do desaparecimento “quando ela (Kate) corria junto do nosso apartamento com Fiona Payne”.

Reconstituição ou documentário

Jane Tanner, apontada no documentário que Channel Four vai transmitir a sete de Maio como uma das testemunhas mais importantes do caso, explica no seu último interrogatório à polícia inglesa as razões que a levaram a recusar participar na reconstituição da PJ.
Segundo o seu testemunho, “estaria no avião amanhã se pensasse que aquilo poderia ajudar a encontrar Madeleine” mas o receio de enfrentar a comunicação social e o facto de lhe terem explicado que a diligência seria apenas “mais uma ocasião de nos incriminar” e não de se focalizar em descobrir o que se passou e onde esta Madeleine, levaram-na a recusar o pedido das autoridades portuguesas. Hoje, quase dois anos depois do desaparecimento de Madeleine, foi portanto Jane Tanner uma das testemunhas que regressou à Praia da Luz para enfrentar os jornalistas e ajudar nas filmagens de uma reconstituição que em nada respeita o inquérito oficial.
“Tenho realmente a necessidade de compreender que aquilo vale a pena fazer e que não é unicamente uma maneira de fechar o inquérito,” disse Tanner acrescentando ainda que “de um ponto de vista dos meios de comunicação social e de um ponto de vista psicológico, o pensamento de voltar a subir aquela estrada e ter de em reviver tudo, seria exactamente terrível”. Foi portanto o que Tanner fez no inicio deste mês e que o 24horas acompanhou no local.

Duarte Levy

7 comentários
  1. EUD permalink
    05/05/2009 13:07

    A vingança das autoridades Portuguesas será terrível, caso o “caso Freeport” venha a ter outro desfecho que não o arquivamento!!! – É que na minha opinião o “caso Maddie” e o seu arquivamento estão relacionados com o outro… são “pactos” secretos. É revoltante a impotência com que o comum cidadão se depara perante estes casos que ficam impunes, tanta mentira, tanto dinheiro envolvido, é um roubo, um ultrage ao comum dos cidadãos a quem obrigam “andar na linha”, com leis e mais leis equanto os “donos do poder” negoceiam as “leis” deles!
    Pobre Madeleine!

  2. João Paulo Lima permalink
    22/04/2009 10:03

    Bravo, Duarte!!
    Não fosses tu (e antes de ti, o Paulo Reis) e a investigação tinha ficado onde «era para ficar» (isto é um ponto de vista pessoal, muito próprio). Há novidades de Marrocos? Não.
    Quanto à Tanner, não comento, até porque conheço bem a Luz e a comunidade ali residente, desde 1984. Que tal falares ao Brian??

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