Skip to content

Caso Maddie : “Posters rasgados e vidas destruídas”

28/03/2009

O autor deste texto não é jornalista. Mas, com as suas palavras sinceras e objectivas, resumiu melhor que muitos de nós, profissionais, o que vai na alma dos algarvios e do povo português em geral. Mais que um grito de revolta para com a nova campanha dos pais de Madeleine, as palavras que nos deixa aqui a sua autora, são para todos nós uma verdadeira lição, que só o coração e a razão de uma mãe sabem escrever.

Texto de Astro.

Na passada quinta-feira, o ‘Correio da Manhã’ reportava a alegada remoção de posters pertencentes à mais recente campanha que os McCann lançaram na zona da Luz/Lagos; posters esses que aparentemente haviam sido arrancados por residentes pouco cooperantes da Praia da Luz. Passadas poucas horas, o ‘Evening Standard’ reportava esta situação como actos de vandalismo, e as discussões sobre o assunto, nos fóruns da internet, foram acesas e intensas.
Pessoalmente, acho o assunto triste, e simultaneamente interessante, mas seria realmente necessário um artigo muito longo para conseguir traçar um quadro daquilo que a vila da Luz tem passado, desde aquela fatídica noite de 3 de Maio de 2007.
O facto de haver pessoas efectivamente capazes de traçar QUALQUER tipo de ligação/comparação entre a preocupação dos habitantes locais com a sua única fonte de rendimento – o turismo – e o respeito ou a consideração por Madeleine, é no mínimo ofensivo. Será que é suposto estas pessoas sacrificarem a sobrevivência das suas famílias, em nome de uma qualquer espécie de maldição que caiu sobre a sua vila, em 3 de Maio de 2007? É suposto estas pessoas sacrificarem as suas vidas, porque seria indecoroso tentar preservar os seus ordenados?
Estas pessoas fizeram TUDO o que podiam fazer, sem ter sido necessário alguém pedir-lhes seja o que for; deixaram de trabalhar, ofereceram o seu melhor esforço, o seu dinheiro, as suas almas e corações para ajudar a encontrar a Madeleine. Quem pensar o contrário, ou foi vítima de contra-informação por parte de certos meios de comunicação, ou é cruel para lá do imaginável. Estas pessoas palmilharam até terem bolhas nos pés, buscando num raio de 15 quilómetros em redor da Luz. Aqueles que não podiam ajudar fisicamente, oferecerem comida e bebida àqueles que podiam, e aos polícias e bombeiros que estiveram no local, dia e noite. Os polícias dormiam nos carros, quando dormiam sequer; houve quem lhes oferecesse algumas horas de sono no sofá de casa. O povo da Luz chorou, rezou, consumiu-se de preocupação por uma pequenita que nem conheciam, como se fosse a sua própria filha, sobrinha ou neta.
Entretanto, o desespero era geral em todo o país. Durante aqueles primeiros dias, houve críticas aos pais – seria falso negá-lo -, mas o sentimento generalizado era ‘primeiro que tudo, há que encontrar a pequenita’. Encontrar a Madeleine era uma prioridade para todos, não apenas na Luz, mas por todo o Algarve, e por todo o país, conforme o demonstram os primeiros ‘avistamentos’ em diversos pontos de Portugal.
Muitos saberão que vivo em Portimão, a cerca de 30 quilómetros da Luz. Recordo-me dos helicópteros a sobrevoar a minha casa, a caminho da Luz, ou no regresso de mais um dia de buscas. Recordo-me dos posters que foram afixados em cada montra, em cada paragem de autocarro, em cada estação de comboios, sala de espera de hospital, entrada de supermercado… Felizmente, nunca tivemos de suportar o que a Luz sofreu, com a invasão de jornalistas de todo o mundo, à procura de mais uma história de ‘ângulo humano’, daquele ‘furo’ especial. Também não tivemos de suportar as suas festas loucas noite após noite – mas essa é outra história.
Mas mesmo a 30 quilómetros da Luz, a ansiedade era palpável, omnipresente, inescapável. A Madeleine era o assunto de todas as conversas, em todo lado, a toda a hora. Olhando para trás, poderá parecer algo surrealista, com o benefício do tempo a distanciar-nos daqueles dias, mesmo um bocado exagerado. Mas em Maio de 2007, parecia que não havia nada que não estivéssemos dispostos a fazer, incluindo comportar-nos de forma exagerada.
Foi precisamente este enorme esforço a nível nacional, este comprometimento tão intenso, de pessoas de norte a sul do país – um esforço que nunca havia sido feito pelas ‘nossas’ (felizmente raras) crianças desaparecidas… – que tornou muito mais duro de suportar o que viria a seguir.
É fácil lançar as culpas pela alteração da perspectiva do público sobre este caso, nas fugas de informação da PJ, as quais os meios de comunicação portugueses publicaram sem reservas. É fácil lançar as culpas pela queda dos McCann, no Dr. Amaral e na sua equipa (uma equipa que incluía polícias e peritos britânicos), ou mesmo na natureza humana, pois que a ‘populaça’ tinha era inveja dos McCann, que eram ricos, famosos e belos.

Mas olhe de novo, por favor.
Verá uma imagem muito diferente.

Verá os pais supostamente devastados, desesperados, a fazer ‘jogging’, a jogar ténis, a receber convidados, a posar para sessões fotográficas, a viajar pela Europa fora. Verá como se sorriam para os habitantes locais quando as câmaras estavam ligadas – e como nem se dignavam dar os bons-dias ao empregado do supermercado Batista que lhes entregava as compras em casa. Verá os meios de comunicação britânicos, sob as ordens dos porta-voz dos McCann, a ridicularizar, a insultar e a humilhar as mesmíssimas pessoas que haviam chorado por Madeleine, do fundo do coração.
E quando a situação se complicou, em vez de responderem às perguntas da polícia, deixaram a Luz sem uma palavra. Viraram as costas àqueles que os haviam tratado como família, que haviam dado tudo o que tinham, e mais alguma coisa.
Alguns dirão que ninguém pediu ao povo para fazer o que fez. Outros dirão que os McCann não deviam nada a esta gente, que tinham de pensar na filha desaparecida, nos filhos remanescentes. Os McCann tinham de proteger a sua família.
E têm razão. Sabe Deus que eu protegeria a minha família com sacrifício da minha vida, se fosse preciso; não há ninguém que não compreenda este argumento.
Mas não pode haver dois pesos e duas medidas, só porque dá jeito.
O povo da Luz está também a proteger as suas famílias. Têm de ganhar a vida, não têm um fundo para pagar a prestação da casa quando os tempos estão difíceis. Não têm apoiantes ricos, nem patrocinadores famosos. Não têm mais nada a não ser braços e pernas para trabalhar, dia após dia, e esse trabalho calha ser, para a grande maioria, o mercado do turismo.
Ainda que por um instante, colocassem de lado os insultos, a arrogância, a humilhação que sofreram, ficavam sempre perante uma escolha perfeitamente básica: uma campanha de êxito altamente duvidoso – ou a necessidade de restaurar a imagem destruída da sua vila enquanto destino turístico familiar e seguro.
Para finalizar, algumas palavras sobre o proclamado propósito desta campanha: os McCann anunciaram que pretendiam angariar a ajuda do povo da Luz, despoletar memórias, recolher qualquer informação que possam possuir sobre a menina, e sobre a noite em que ela desapareceu – na crença que um elemento da população da Luz poderia ter escondido informação da polícia, de forma deliberada.

Penso que se chama a isto, esfregar sal na ferida.

Lamento se isto ofende alguém, pois claramente não concordo com o rasgar de posters neste caso; mas se alguma vez me deparar com algum, calmamente, sem alarido, tratarei de o remover e colocar no ‘papelão’. Não preciso de posters para me lembrar de uma pequenita que não merecia o destino que lhe coube.
E o povo da Luz também não.

Astro (publicado em inglês no blog Joana Morais)

3 comentários
  1. matilde permalink
    29/03/2009 22:09

    Texto belíssimo saído do fundo do coração.
    Tanta preocupação, tanta angústia no povo algarvino.
    Para aos poucos começarmos a desconfiar da história.
    Pais hipócritas a enganar o mundo e a pedir dinheiro, a enriquecerem-se, usando o nome da miúda e explorando gente de boa fé.
    Dia 03 de maio será o aniversário da morte.
    Por quê não uma manifestação pacífica no Algarve, defendendo o nosso Portugal e a nossa polícia ofendidos?
    Absurdo aceitar o que a Inglaterra fez conosco.
    Não somos carneiros.

  2. marialopes permalink
    28/03/2009 14:50

    OBRIGADA ASTRO, OBRIGADA DUARTE, por me permitir ler em portugues, sem margem para qualquer erro de ( má ) tradução este belissimo, tocante e VERDADEIRO testemunho.

    Tal como MILHÕES de Portugueses, rezei, chorei, angustiei-me, perdi mais um pouco da ( pouca )fé que tinha nos homens e mulheres de hoje.

    Mas houve algo muito pior…. perdi também muita da confiança nas palavras PAI, MÃE e FAMILIA !

    E isso, ainda hoje não consigo perdoar ao casal McCann !

    MADELEINE, nunca deixarás de fazer parte da minha vida, das minhas memórias e também das minhas angústias!

    Repousa em PAZ, querida.

  3. 28/03/2009 14:08

    Astro, já te tinha dito, mas de qualquer forma, obrigada por teres dito aquilo que muitos milhares de nós queríamos saber dizer dessa forma.

Os comentários estão fechados.

%d bloggers like this: